“O poder não satisfaz, é como droga que requer
sempre doses maiores”.
(L. De Crescenzo).
Nos
quatro artigos anteriores, reproduzimos a trajetória política de Plácido
Scussel com base na pesquisa que realizamos em jornais, livros, documentos,
anais da Câmara Municipal, depoimentos de conterrâneos e no nosso testemunho
pessoal. Concluímos que ele foi, sem dúvidas, o político getuliense mais
poderoso de todos os tempos.
Segundo
o sociólogo alemão Max Weber, numa famosa classificação, o poder pode ter base
na lei, no carisma ou na tradição. Na lei, quer dizer, nas instituições do
Estado, o poder de Scussel foi efêmero. Só repousou até 1959. Carisma ele não
possuía. Ttradição, ainda menos. Logo, não se enquadra nessa tríade. Assentava-se,
sim, no seu poder econômico, que emergiu a partir do momento que ele, em janeiro
de 1953, por mero acaso, assumiu a presidência da Cervejaria e Maltaria da
Serra Ltda. (Serramalte). Lá, se perpetuou no cargo até a morte. Da Serramalte
emanava seu poder político e de persuasão.
Ele
transformou a Serramalte, que surgiu de uma exemplar iniciativa comunitária,
num feudo. Numa ação entre amigos. Sob sua administração, a empresa passou a
ser, também, um aparelho político a serviço do seu novo partido. Os getulienses
sabem que, a partir do domínio acionário do seu grupo, lá só trabalhavam seus correligionários.
Tradicionais ou convertidos. As exceções, raras, sempre foram de ordem técnica.
O requisito principal para admissão era seguir a sua cartilha política. Exemplo
é o episódio acontecido com um dos seus afilhados que exercia um cargo de
direção. Na véspera de uma eleição reuniu os empregados e pediu que eles votassem
nos candidatos do seu partido. Repetiu, aplicado, a lição do mestre que já
falecera. Esqueceu que tudo mudara. Agora a administração era da Antarctica.
Foi imediatamente demitido. Empresas sensatas não praticam política partidária.
Scussel
foi um patriarca. Como tal, a sua autoridade era incontrastável. Regia as
pessoas do seu entorno como uma família. Dominava a arte de ser bondoso e
severo e de distribuir prêmio ou castigo. Ungia, parentes, amigos e protegidos,
e os catapultava a cargos para os quais sequer detinham competência. Com os seus
novos parceiros políticos, dedurou seus opositores aos feitores da ditadura
militar que apoiava incondicionalmente. Influiu na cassação dos direitos
políticos de seus ex-correligionarios, cujo único crime era o de serem agora seus
adversários políticos e não se atrelarem à ditadura militar, perversa, que se
instalara.
Scussel foi, também, polêmico,
autocrático, vaidoso e revanchista.
Polêmico,
quando imaginou construir uma terceira ligação Getulio Vargas-Estação, mesmo
com pareceres técnicos contrários do DAER e a desaprovação da população. Como
vereador, cobrou obstinadamente a execução do seu sucessor e então correligionário.
Trocou de partido por isso. Na legislatura seguinte, como prefeito, em quatro
anos, não construiu um metro sequer da tal ligação. Autocrático, porque pouco ouvia
seus correligionários. Nunca seus adversários. Vaidoso, porque colocava placas
de bronze com seu nome em todas as obras que inaugurava. Independente da
importância. Revanchista, porque, no período da ditadura, fez tudo para
destruir seus adversários políticos. Conseguiu! Os principais lideres regionais
do PTB (o partido que ele abandonara) tiveram seus direitos políticos cassados
por 20 anos.
A
partir de 1959, Scussel jamais se candidatou a qualquer cargo eletivo. Sequer
foi dirigente formal do seu partido. Porém, até a sua morte, nos bastidores,
continuou exercendo enorme influência política em toda a região. Sua postura
valeu-lhe o apelido de “coronel”.
O
mestre da historia recente do Brasil, Thomas Skidmore, afirmou que o brasileiro
não tem memória histórica. Esquece com extrema facilidade fatos relevantes.
Tende a reverenciar aqueles que detiveram o poder econômico ou político em
detrimento de outros com valores muito mais importantes. Para os getulienses,
Scussel é o paradigma.
Nessa série da cinco artigos, visamos reconstituir
parte da história política de Scussel, polemica e cheia de contradições. Concluímos
que os futuros bons políticos getulienses pouco têm a aprender com ele.
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Membro
do Instituto Histórico e Geográfico de Getulio Vargas.
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